O livre arbítrio em questão no clássico de Burgess |Resenha|

Imagine um futuro distópico em que os jovens não respeitam mais as leis e cometem diversos tipos de crime. De manhã: escola. De noite: drogas, roubos, espancamentos e estupros. Os adolescentes dessa metrópole aterrorizam os demais cidadãos, que, amedrontados com a crescente violência, trancam-se em suas casas, buscando um pouco de segurança. Esse é o cenário que o autor Anthony Burgess traz para nós no clássico Laranja Mecânica.

Ao lado de obras como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Laranja Mecânica é uma das distopias mais influentes de todo o mundo. Chegou a ganhar duas adaptações para o cinema, sendo a mais famosa delas dirigida por Stanley Kubrick e estrelada por Malcolm McDowell, em 1971.  Ambientado em um futuro impreciso, o livro é uma confissão autobiográfica de Alex, um adolescente de 15 anos, amante de música clássica. Ele lidera uma gangue formada por mais três garotos, Pete, Georgie e Tosko, seus “druguis” – que, no vocabulário inventado por Burgess, significa “amigos”.

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Juntos, eles quatro se reúnem para cometer perversidades em uma cidade decadente todos os dias logo após tomarem o famoso Moloko-com – leite com drogas -, que os deixa preparados para mais uma noite de “ultraviolência”. Porém, uma vez, acidentalmente, Alex comete assassinato e, após ser abandonado por seus companheiros, é capturado pela polícia. Dois anos depois do ocorrido, por causa de seu comportamento violento na prisão, é escolhido para ser submetido ao Tratamento Ludovico, uma técnica de lavagem cerebral que consiste em expor obrigatoriamente o paciente a assistir imagens violentas por grandes períodos de tempo sob o efeito de drogas que provocam dor. Assim, Alex passa a associar os atos de violência com as sensações dolorosas e torna-se incapacitado de ser cruel como era no passado. De volta a sociedade, ele terá que se reajustar como um bom cidadão, sofrendo ataques daqueles que antes eram suas vítimas. Como pano de fundo da história, Burgess apresenta um governo totalitário e disputas políticas, cujos envolvidos utilizam as pessoas para os fins meramente políticos.

Apesar da leitura por vezes, perturbadora, são inúmeras as reflexões que Laranja Mecânica proporciona. Certamente, há uma discussão acerca da eficácia do sistema carcerário na reforma do indivíduo. Além disso, o livro também toca em temas como a passagem da adolescência para a vida adulta e a identidade do homem. No entanto, a reflexão que mais se destaca é a do livre-arbítrio. O tratamento tornou Alex incapaz de escolher suas ações.

Durante a leitura, não se pode ignorar o Nadsat, vocabulário que Burgess criou e um dos motivos que torna o livro uma tão obra genial. O autor inventou mais de duzentas palavras com base em gírias, na própria língua inglesa e em expressões eslavas. Ao se deparar com elas pela primeira vez, o leitor pode ficar assustado e checa o dicionário atrás do livro em toda frase. Entretanto, depois de algumas páginas, o Nadsat já passa a fazer parte de seu vocabulário. Assim como Alex, também sofremos uma lavagem cerebral. Sem nem nos dar conta, aprendemos a nova língua e às vezes,  chegamos a usá-las no dia a dia por falta de atenção. A narrativa em primeira pessoa contribui muito para que isso aconteça, pois nos proporciona um contato bem maior com o linguajar. Se não fosse ela, leríamos o Nadsat apenas nos diálogos; entretanto, os pensamentos de Alex são recheados com as palavras inventadas de Burgess, gírias fictícias usadas pelos jovens daquela época.

“Então nós sluchamos as sirenes e percebemos que os miliquinhas estavam chegando com pushkas despontando prontinhas das janelas dos autos de polícia. Sem dúvida aquela devotchka chorona havia contado a eles, porque havia uma caixa para chamar os rozas que não ficava muito longe da Usina de Força do Muni. – Pergar-vos-ei em breve, não temei – eu gritei – bodinho fedorento. Vou arrancar seus yarblis lindamente”.

Analisando Laranja Mecânica por um viés feminista, a falta de personagens femininos relevantes realmente incômoda. Este é um grande ponto negativo da obra: a maior parte das mulheres aparecem apenas para serem estupradas, e as poucas que não, não tem importância ou não se destacam. Isso se deve a dois fatores: tempo em que a obra foi escrita e, mais uma vez, a narrativa em primeira pessoa. É assim que o próprio Alex enxerga as mulheres e transmite para nós a sua visão de mundo.  

A escolha da narrativa autobiográfica nos deixa mais próximos do protagonista. Por conhecermos tão profundamente os pensamentos e sentimentos de Alex, nós passamos a gostar dele, a torcer por ele. Chegamos até a idolatrá-lo. Se pararmos para pensar, é doentio adorar um adolescente que estupra sem hesitar e espanca idosos na rua; contudo, o personagem principal não nos deixa odiá-lo. É um fato que psicopatas têm uma grande habilidade de manipulação, e é isto que Alex faz conosco: nos manipula com seu carisma para que gostemos dele. Com uma incrível habilidade de sedução, o narrador nos fascina, seja pela forma um tanto quanto irônica de narrar os fatos – que transforma sua maldade em algo quase cômico – ou por sua personalidade transviada. No filme, o ator Malcolm McDowell é excelente ao dar vida a Alex, não deixando escapar nenhuma das características que transformam o garoto em um personagem icônico.

O centenário de Anthony Burgess

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Em fevereiro deste ano, Anthony Burgess completaria 100 anos. Nascido no ano de 1917, em Manchester, na Inglaterra, ele era um escritor, poeta, dramaturgo, compositor, linguista, tradutor e crítico inglês. No início dos anos 60, foi equivocadamente diagnosticado com um tumor cerebral. Querendo deixar a futura viúva em uma situação financeira confortável, Burgess escreveu intensamente nesse período e concebeu, entre outras obras, o clássico Laranja Mecânica. Ele só veio a falecer 41 anos após a publicação original de seu livro mais famoso. Morreu de câncer de pulmão em 22 de novembro de 1993, em Londres, aos 76 anos. Seu último romance, Byrne, foi publicado postumamente em 1995.

Resenha: Letícia Höfke
Fotos: Divulgação

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5 comentários Adicione o seu

  1. Excelente post!Vou procurar baixar em PDF “Laranja Mecânica” e todos esse que você citou.Você só esqueceu de incluir na lista de livros sobre distopia o clássico “Planeta dos Macacos”,do escritor francês Pierre Boulle.É um dos meus livros favoritos!

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    1. Rubens, que bom que você está gostando! O Bolha ainda vai fazer várias resenhas de livros e quem sabe não faremos uma especial do “Planeta dos Macacos”? 😉

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      1. Seria ótimo!É realmente um grande livro!

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      2. Rubens, se quiser acompanhar melhor o Bolha, curte a nossa página do Facebook. Lá escrevemos notícias curtas sobre o mundo literário!

        https://www.facebook.com/bolhaliteraria/

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  2. Giesta Silva disse:

    Ótima resenha, principalmente pela percepção feminista de como a mulher se apresenta no contexto da história – humilhada e desvalorizada.

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