Os boxeadores |Inédito|

Puxa, como passa depressa o tempo,

e a gente dentro dele!

Campos de Carvalho

No final do ano das desgraças que foi 1973, quando o garoto caiu no poço e a empresa cortou metade dos funcionários, ele resolveu se isolar. Apanhou o caminhão e dirigiu até o interior, onde a mata era densa e os chispos dos bichos pareciam um pedaço de pão sendo devorado por cães desdentados.

A primeira semana veio coberta em geada tão fina que parecia glacê podre. Por isso saía do quarto de infância e pisava nas folhas com a botina de couro gasto. Via a sola virar uma papa enlameada, com verdinhos grudados entre os sulcos, e então batia com a pá enferrujada até que o excesso retornasse ao barro. No décimo dia, telefonou para a esposa.

Tá tudo bem. Vim ver o gelo.

Ficaram em silêncio por alguns instantes, um ouvindo a respiração do outro enquanto a geada lá fora. Ele sentia. No rosto e na borda da boca, a carne ceifando lentamente como carvão em brasa.

Volta, ela disse.

E desligou.

Aposentadoria – todo mês na agência da esquina. Bom dia do verdureiro, do jornaleiro e da mocinha da padaria. Dona Dulce, como vai? Vai bem. E as crianças? Semana que vem tão aí. Na próxima semana elas vem. Deu um problema no carro do meu filho. Minha nora se atrasou pro trabalho. Colônia de férias, o mais velho adora. Com o tempo, bastava olhar as pessoas e já dizia sozinho. Não percebeu que a mocinha da padaria foi demitida. Que o jornaleiro teve um infarto e ficou dois meses ausente. Semana que vem, disse quando o viu novamente (parecia ontem). Semana que vem eles vêm, vou trazer aqui pra você conhecer.

Oi.

Como foi? Saiu o dinheiro?

Saiu.

Ótimo.

Sabe, aconteceu um negócio muito estranho.

O quê?

Eu estava passando pela banca e bateu uma vontade danada de comprar um chicletinho daqueles de menta, aí peguei e disse, quer saber, vou comprar, e você sabia que o jornaleiro me perguntou quando que os meninos viriam?

E o que você respondeu?

Que não sabia de menino nenhum, quanto mais meninos.

Semana que vem, Dulce. Os meninos vêm semana que vem.

Que história de meninos é essa, Hermano?

Os meninos vêm semana que vem, ora bolas.

Você tá batendo bem, Hermano?

Semana que vem. Nosso filho vai trazer nossos netos semana que vem. Ele pediu desculpas. Avisa pro jornaleiro.

Hermano…

Dulce, já disse, semana que vem. Não me perturba a paciência. Você acha que só você tá com saudades? Eu também estou. Falei com eles anteontem. Eduardo está aprendendo a jogar futebol, vai mostrar pra gente, você vai ver, nosso filho disse que tá batendo um bolão, vai ser que nem o Tostão. Mas sem a parte do olho. Vai enxergar bem que é uma beleza. A vida toda. Ele vai enxergar, Dulce. Vai ver o camarada lá do outro lado do campo, cruzar e dar assistência pro gol do título. Você vai ver.

Ela tinha pouco mais de vinte anos quando o menino caiu no poço. Os bombeiros retiraram o corpo num começo de tarde em que o céu era encharcado de luz e o orvalho esquentava a pele das flores. No banho, quando o marido não estava em casa, era capaz de fechar os olhos e ouvir os gritos. As sirenes. O barulho do caixão tocando o fundo da sepultura. Aí lembrava do pai, professor de educação física – Vocês dois adoram brigar, ficam perdendo tempo demais brigando, uma hora a vida dá uma rasteira e vocês dois vão ter o que realmente brigar, parem de perder tempo, meninos, parem de perder tempo e vão viver a vida, que é muito curta até mesmo pra brincar de Muhammad Ali.

Então desligava o chuveiro e se encharcava nas próprias lágrimas.

Anos depois, foi efetivado condutor do metrô. O dia inteiro percorrendo a cidade em veias de concreto e poeira. Um dia não aguentou e parou a composição no meio do trajeto. Ainda ouvia o gelo se partindo em suas mãos – os dedinhos de criança: tão úmidos e ainda assim incapazes de derreter. A água caía no poço e enchia e transbordava como um coração engasgando o sangue com cimento podre.

No terceiro sinal do Controle ele percebeu que estivera parado por tempo demais. Deu uma desculpa qualquer e rompeu túnel adentro.

Volta pra casa.

Por que você veio?

Pra te levar de volta.

Não quero voltar pra casa.

Hermano, nosso filho não vai voltar. Mas eu ainda tô lá, quer dizer, ainda tô aqui, eu vim aqui, sei que é difícil, mas você não precisa se esforçar. Não comigo. Eu te entendo. Eu sou mãe do teu filho, Caramba. Nosso filho vive em nós, Hermano. Ele vive em nós.

Eu vou lembrar. Vou olhar pro quarto dele e vou lembrar.

A gente doa tudo pras crianças pobres. Volta comigo. Vamos pra casa, meu amor. Pra nossa casa. Por favor.

E se eu lembrar? E se eu me desesperar, Dulce?

Eu te seguro.

Nosso filho não vai vir, Hermano. Nem hoje e nem semana que vem. Nem nunca.

O que você está dizendo, Dulce, ficou maluca? Ele me ligou, teve uns contratempos e depois vem, ora bolas. Você está pirando?

Hermano, nosso filho morreu. Nosso filho caiu no poço e morreu.

Ele vem semana que vem, Dulce, você não sabe o que diz. Foi um acidente, a gente esqueceu a tampa aber—

Ele vai ver o gelo, Dulce. A geada. Vou levar ele de caminhão comigo. E depois vamos andar de metrô e vou mostrar o lugar onde os ratos se escondiam entre uma estação e outra.

Ele morreu, Hermano. Para nunca mais voltar.

Semana que vem, Dulce. Semana que vem. Agora você me dá licença que eu preciso dormir um pouco. Acordei cedo demais. Me levanta às três. Te amo.

A porta estava emperrada. Doía para empurrar. Reumatismo quando bate é um problema, já dizia sua tia. Mas ela não se incomodava. Reumatismo nenhum é mais forte que enterrar o próprio filho. Existe a ordem natural das coisas, balbuciou enquanto tirava a blusa, e os filhos sobrevivem aos pais, não existe o contrário, não existe o contrário—

Desligou o chuveiro e deixou o encharque vir.

Mateus Baldi

Mateus Baldi nasceu em 1994. Escritor e roteirista, estuda comunicação social na PUC-Rio e é formado pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Foi editor de cultura da revista Poleiro, fundador da plataforma literária Resenha de Bolso e vice-campeão do VIII Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, do departamento de Letras da PUC-Rio. Seus contos já foram elogiados por Paulo Scott, Zuenir Ventura e Sérgio Rodrigues, entre outros. Atualmente, trabalha em seu primeiro romance.

O Bolha Literária acredita na divulgação de novos escritores que muitas vezes não tem a oportunidade de publicar seu trabalho em editoras. Esse espaço foi construído para dar voz a esses jovens talentos. Caso queira enviar o seu texto para ser analisado e publicado basta mandar para o e-mail bolhaliteraria0@gmail.com.

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