Um livro em quadrinhos sobre uma menina que viu de perto o que é a guerra |Resenha|

Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico em uma sala de aula só de meninas. Nascida no Irã em 1969, passou toda sua infância no Teerã, capital. Bisneta do Imperador do país, ela teve uma educação que misturava os valores da cultura Persa com a cultura ocidental. Logo no início  do livro temos um breve resumo sobre a história política do Irã, passando pela queda de um regime, uma revolta popular e uma ditadura islâmica. Em sua infância, a autora presenciou a revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita. No primeiro capítulo, ela explica a mudança radical pela qual o Irã passou e destaca a obrigatoriedade do véu, a revolta das crianças que o achavam desconfortável e até a proibição de hábitos que antes eram comuns para o povo – como beber vinho ou se reunir com amigos.

No decorrer do livro começa a guerra entre Irã e Iraque. E, apesar de retratar um tema tão pesado, a autora tem a sensibilidade de uma criança, o que deixa a leitura leve. Um dos pontos mais interessantes do livro é entender a situação do ponto de vista de uma iraniana, fato que esclarece a visão dos leitores tão acostumados aos estigmas ocidentais.

https://bolhaliteraria.files.wordpress.com/2017/04/f9a7b-p5.jpg?w=1280&h=852

Com o aumento da violência da guerra, os pais de Marjane a mandam para Viena. Aos 14 anos ela relata as dificuldades de ficar longe de sua família e o choque de viver em um país diferente, sem ninguém para ajudá-la. Lidar com os estigmas culturais e os preconceitos em relação a uma cultura que nós ocidentais pouco conhecemos foi uma barreira para ela.

A autora retratou momentos difíceis ao passar a adolescência, já que estava tentando entender quem era ao mesmo tempo que descobria uma nova cultura. Além disso, voltar para ao Irã e vê-lo com os olhos de uma mulher que passou quatro anos na Europa causa um desconforto em Marjane. A busca pela identidade é um ponto interessante da obra. Um dos trechos que mais impressionam do quadrinho foi na fala “Era uma ocidental no Irã e uma iraniana no ocidente”.

https://i0.wp.com/livroecafe.com/wp-content/uploads/2016/10/hq-persepolis-marjane-satrapi-pb-700x525.jpg

No entanto, o ponto alto do livro é a relação da Marjane com sua família. As conversas sobre a vida, o regime político e o apoio quase indicional de seus pais. Além disso, a relação com sua avó, uma mulher empoderada em relação ao regime em que vivia, é uma parte marcante do livro, que evolui conforme a personagem principal cresce. Apesar de toda sua trajetória comovente, Marjane é um mulher “sem sal”. Logo no ínicio do livro vemos que ela já tinha uma consciência política avançada e lia livros extremamente politizados para sua idade. Por esse motivo, sua versão adulta não faz jus a criança que foi. Contudo, ainda é possível construir uma apatia a Marjane adulta, já que conseguimos nos conectar com seus dilemas de sua vida e também pela sinceridade da autora durante a narrativa.

As ilustrações do livro são em preto e branco, com traços simples mas bem descritivos.

https://bolhaliteraria.files.wordpress.com/2017/04/1a314-persepolis2b01.jpg?w=1000

Resenha: Giovanna Amorosini

Fotos: Giovanna Amorosini e Divulgação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s