Narcisa |Inédito|

Avella nascera, literalmente, em berço de ouro. Um castelo com sete criados em cada um dos quarenta e dois cômodos lhe servia como moradia. Filha de pais muito bem apessoados (e abastados), deles absorvera ia mais belos traços. Desde menina, adorava enfeitar-se e admirar-se ao espelho. Agonizava quando precisava acompanhar os pais em passeios e ficava longe de seu reflexo, chorava e se dizia que até perdia cor. Não tardou até os empregados terem de carregar atrás da guria seu pesado apetrecho de moldura dourada – e da altura de seu pai – para lá e para cá.
Cresceu com dezenas de pretendentes dispostos a lamber sua latrina em troca de sua mão, mas recusava todos sem sequer dar-se o trabalho de recebê-los. Corria pelas bocas da propriedade dos pais que, se pudesse, Avella desposaria o reflexo. Com os anos, foi se tornando agressiva com quem chegasse perto de seu amuleto. Apenas ela poderia limpá-lo e não suportava a imagem de outra pessoa importunando a sua.
Uma bela madrugada, um molecote filho de servente riscou o reluzente vidro de alto a baixo para aborrecer a moça. De manhã, os gritos da beleza permeavam o castelo: não apenas estava o espelho riscado, mas o próprio corpo de Avella apresentava um risco do couro cabeludo à ponta do dedão. Os pais se apressaram ao quarto da jovem, bateram a porta e durante três horas, tudo que se ouvia eram gritos confusos e desesperados, incompreensivos e incompreendidos. Fora decidido que a moça não mais sairia dos seus aposentos. Apenas uma aia entraria para dar-lhe a comida e retirar seu penico, sem olhar nunca a dona do quarto nos olhos.
Assim se passou durante uma semana, até que novamente o castelo acordou aos berros da menina. Guardas foram postos para vigiar a porta de seu quarto, sendo invasores punidos com decapitação e simples curiosos com furos nos olhos. O rumor que tomava os corredores do edifício era que um pedaço do rosto da baronesa filha caíra, assim como do espelho. Um losango deixava um vazio em seu semblante, enquanto rachaduras apareciam por todo o seu corpo. Do vidro de seu amor, escorria um líquido vermelho.
Os dias corriam e a nobre promogênita se tornou como uma canção de ninar. Não era mais vista. Seus chorosos soluços, porém, podiam ser escutados à noite. Sua dor atestava a veracidade de sua existência.
Era noite. Um estrondo de vidro quebrando acordou toda a propriedade. Estardalhaço na porta do quarto mais misterioso do castelo. Os pais entraram correndo. A mãe caiu de joelhos em prantos, gemidos doídos. O pai caiu ao abraçá-la, também convulsionando em lágrimas. Na cama da jovem, porcelana em cacos e farelos. Do espelho destruído, tripas e sangue espalhavam-se pelo chão. E ao pé da cama, a escova que terminara o lento e carregado sofrimento do casal.

João Lucas Pedrosa

Aluno de cinema da PUC-RIO, João Lucas tem uma grande fixação em escrever sobre as diversas facetas do indivíduo. Ganhou duas vezes o prêmio Festival Pequeno Cineasta – Categoria Nacional Jovem com os curtas Obsessão e Quarto Branco.  No último, recebeu menção especial do Júri na Sezione Ragazzi do Corti a Ponte. Embora seja mais ligado ao cinema, João acredita que algumas histórias que cria só conseguem ser contadas por meio de contos e crônicas.
O Bolha Literária acredita na divulgação de novos escritores que muitas vezes não têm a oportunidade de publicar seu trabalho em editoras. Esse espaço foi construído para dar voz a esses jovens talentos. Caso queira enviar o seu texto para ser analisado e publicado basta mandar para o e-mail bolhaliteraria0@gmail.com.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s