‘O livro é tratado com a mesma indiferença com que tratamos eletrodoméstico ou sabonete’, diz Castello |Entrevista|

Os livros expostos nas vitrines hoje em dia são censurados pelo escritor e ex-crítico do Globo José Castello. Segundo ele, o livro se tornou um produto para o mercado editorial e, por essa razão, é tratado com a mesma indiferença que outros objetos. Em suas críticas, Castello diz que tenta escrever como se estivesse conversando com o leitor na mesa de um bar. “Tento escrever como se sussurrasse um segredo ao ouvido de meu leitor. A literatura é uma experiência íntima, uma experiência que se vive em silêncio e em segredo, e procuro conservar esses aspectos cruciais também no que escrevo”. Confira a entrevista que o Bolha Literária fez com esse personagem interessante!

Bolha Literária: Como surgiu o convite para ser crítico literário?

Castello: Não sei se sou um crítico literário. Prefiro sempre me considerar, de forma mais simples, um “leitor comum”. Não tenho formação acadêmica na área de Letras – me formei em jornalismo e fiz um mestrado em Teoria da Comunicação. Não sou, portanto, um especialista; não possuo um saber especializado. Ao contrário, sou um autodidata, que desde cedo lê sozinho e sem nenhuma orientação. Quando escrevo sobre livros para a imprensa – como fiz durante quase 10 anos no Prosa e Verso de O Globo – não pretendo escrever crítica literária. Faço mais um relato de viagem – pois considero a leitura uma empolgante viagem interior. É como se eu escrevesse uma carta a alguém, a um amigo, contando uma viagem que fiz. Como a viagem me marcou, que experiências vivi, que sentimentos me dominaram, como reagi, que pensamentos me vieram, etc. É assim que escrevo. De qualquer modo, consideram-me, em geral, e por conta desse trabalho na imprensa, um crítico literário. Tanto que sou convidado com freqüência para júris literários, como o do Prêmio Oceanos, de São Paulo, e chego a ser membro fixo do júri do Prêmio Leya, de Lisboa. Comecei a escrever sobre livros para a imprensa muito cedo. Meus primeiros textos foram publicados, na segunda metade dos anos 1970, na revista IstoÉ – que, na época, era uma publicação muito mais digna do que é hoje. Cheguei a editor do “Idéias/Livros”, o tablóide semanal de livros do Jornal do Brasil. É um longo percurso, que já tem quase 40 anos.

Bolha Literária: Qual é o principal desafio de ser um crítico de literatura atualmente?

Castello: Creio que o desafio maior é enfrentar e conseguir se livrar das cada vez mais fortes, insuportáveis, pressões do mercado. As livrarias estão cheias de Best Sellers de terceira categoria, que se devoram como biscoitos, e os livreiros só se interessam por eles. O livro virou um grande negócio – é tratado com a mesma indiferença com que tratamos um eletrodoméstico, ou um sabonete. Muitos editores chegam a reescrever os originais que recebem de seus autores para adequá-los a uma linguagem mais padronizada e mais digerível. Afora exceções, os livreiros só expõem, em suas gôndolas de frente, os livros das mega editoras e dos grandes grupos editoriais. Predomina, ainda, a idéia de que o livro é, antes de tudo, uma “diversão”. Como observou meu amigo Raimundo Carrero em um artigo recente: já não se escrevem mais livros “para pensar”, mas livros “para dormir”.  A idéia é a de que a literatura deve divertir e relaxar – e não mais perturbar e desafiar. No entanto, os grandes escritores continuam a ser aqueles que nos perturbam e nos desafiam. Os livros que mais amamos são aqueles que nos deslocaram, que nos tiraram do lugar, que nos transformaram, e não aqueles que nos fizeram dormir com rapidez. São tempos muito difíceis e os críticos devem estar muito atentos para não vacilar diante de todas essas pressões. Conservar a independência, conservar a liberdade interior, continuar a acreditar que a literatura (a arte) é, antes de tudo, não uma anestesia, não um sonífero, mas um instrumento de transformação e de expansão interior. Esse é o grande desafio que a crítica de hoje enfrenta.

Bolha Literária: Qual foi a crítica que você mais se orgulha de ter feito? Poderia falar um pouco sobre ela?

Castello: Sinceramente, não sei responder. De cada texto que escrevi, me orgulho por um aspecto diferente, e também me aborreço com outros aspectos diferentes. Nunca estou satisfeito com o que escrevo. Isso se passa tanto em meus textos para a imprensa, como em minhas ficções. Penso que minha escrita é regida por uma grande instabilidade, uma grande imprevisibilidade, uma grande inconstância – e este é, talvez, um efeito de meu amadorismo. De fato, considero-me um amador, não só no sentido do que não é um especialista, mas também no sentido daquele que ama. Amo muito a literatura. Com freqüência observam que escrevo com paixão, e isso me deixa muito feliz porque sinto que, nos textos que escrevo, fica inscrita a paixão que, de fato, sinto pela literatura. Mas não respondi a sua pergunta. Quase nunca respondo direito às perguntas que me fazem, estou sempre me desviando e não me importo com isso.  Já disseram que minha biografia de Vinicius de Moraes (“O poeta da paixão”, Companhia das Letras, 1994) é, na verdade, um romance disfarçado. Que minha coletânea de retratos literários, “Inventário das sombras” (Record, 1999) é, a rigor, um livro de contos. Minhas ficções – “Fantasma” (Record, 2001), “Ribamar” (Bertrand Brasil, 2010) e “Dentro de mim ninguém entra” (Berlendis, 2016) – livro que escrevi pensando no público infanto juvenil, mas que está sendo mais admirado por adultos –  são, elas também, textos limítrofes, que oscilam entre vários gêneros.  Meu lugar é a fronteira. Meus livros são enigmas que nem eu mesmo consigo decifrar. Não me interesso pela perfeição, mas pela imperfeição.

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Bolha Literária: Como foi escrever o livro “Ribamar”, que ganhou o prêmio Jabuti em 2011 como melhor romance?

Castello: Foi a experiência literária mais radical que vivi. É muito difícil sintetizá-la. Durou mais de quatro anos e modificou minha vida. “Ribamar” partiu de várias idéias diferentes. Trata, literariamente, de minha difícil relação com meu falecido pai, José Ribamar. Trata de Franz Kafka e de sua relação difícil com Hermann Kafka, seu pai. Trata de uma viagem a Parnaíba, no delta do Piauí, cidade em que meu pai passou a infância e a juventude e até onde fui não exatamente para reencontrá-lo (ele nasceu em 1906 e saiu de Parnaíba, em definitivo, em meados dos anos 1920), mas para reinventá-lo. Trata dos sonhos noturnos, variados e intensos, que tive durante o processo de escrita. Enfim, é uma narrativa com muitos braços e que persigo muitas obsessões. Parto de várias experiências reais, mas não para descrevê-las com objetividade, como faria um repórter, e sim para reinventá-las. Literatura é invenção – literatura é, antes de tudo, mentira. Na verdade, a literatura que me interessa é uma literatura que oscila entre a verdade e a ficção. Uma literatura, como dizia o argentino Ricardo Piglia, que se interessa não em saber qual é a presença da realidade na ficção, como fazem os escritores realistas, mas, ao contrário, em saber qual é a presença da ficção na realidade. “Ribamar” foi um livro muito difícil de escrever. Trabalhei, antes de tudo, com o acaso – como se, enquanto escrevia, estivesse sendo guiado por uma mão secreta. A origem do livro já é uma demonstração disso. “Ribamar” surgiu de um velho exemplar da “Carta ao pai”, de Franz Kafka, que dei de presente a meu pai no Dia dos Pais do ano de 1976. Nunca soube se meu pai leu esse livro. Meu pai faleceu em 1982 e o livro desapareceu. Trinta anos depois, em 2006, o escritor Rubens Figueiredo, meu grande amigo, o reencontrou por acaso em um sebo, o “Berinjela”, no centro do Rio de Janeiro. Reconheceu minha letra na dedicatória – uma clássica dedicatória de “Dia dos Pais” para meu pai. Comprou o livro e me enviou. Era meu livro, era o livro que dei para meu pai! Com um livro que volta trinta anos depois, ainda mais um livro tão precioso, eu precisava fazer alguma coisa. Durante semanas a fio pensei, obsessivamente, no que fazer desse livro que me voltou. Até que me veio a idéia: de um livro só pode sair outro livro. Nesse momento, comecei a escrever “Ribamar”. A história do livro que me voltou 30 anos depois está incorporada a meu livro.

Bolha Literária: Hoje você se vê mais como escritor ou jornalista? Como essas duas profissões afetam o seu dia a dia?

Castello: Desde que, em 1992, abandonei as redações de jornal – no caso, do “Jornal do Brasil”, do Rio, onde eu era editor dos suplementos “Idéias/Livros” e “Idéias/Ensaios” – para trabalhar na biografia de Vinicius, meu primeiro livro, acho que me tornei mais um escritor do que um jornalista. Na verdade, sinto-me muito distante do jornalismo que se pratica hoje no Brasil. Sou muito crítico ao jornalismo atual – que, infelizmente, se tornou mais um veículo de escândalos e de propaganda política e que perdeu todo o equilíbrio e o pluralismo que, a meu ver, caracterizam o jornalismo sério. Então, sinto-me menos jornalista ainda. Entre 2000 e 2010, durante 10 anos, como colaborador do “Caderno 2”, de “O Estado de S. Paulo”, fui apenas um repórter literário e, sobretudo, um cronista. No “Prosa & Verso”, de O Globo, tornei-me o que chamam de crítico literário – mas, na falta de outro nome melhor e embora não muito satisfeito, prefiro dizer que fui um cronista literário. Desde menino de calças curtas, quis ser um escritor. Sim, sou um escritor. Não importa se bom, ou ruim – e não sou eu quem deve dizer isso, decidir isso -, mas sou um escritor.

Gostou da entrevista? Essa é a primeira de muitas que ainda vão vir. Autores, editores, designers de capas, tradutores… O universo literário tem diversos personagens com ótimas histórias para contar. Qual deles vocês gostariam que o Bolha entrevistasse? Não se esqueça de seguir o site no Facebook. Até a próxima!

Entrevista: Nathália Afonso
Foto: Divulgação

 

 

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