Livro “Jóquei” consagra a poeta Matilde Campilho para a eternidade |Resenha|

Matilde Campilho é uma flâneur do século XXI. O olhar atento dessa menina mulher faz seus textos ficarem ricos de imagens. E nós, leitores, damos saltos mentais para acompanharmos a escrita de Matilde. “Jóquei” (2014) é o primeiro e único livro dela – e que a consagra poetisa para o resto da vida. Como ela mesma disse em entrevista para a FnacPortugal: “agora que consegui dizer que sou poeta, todo caminho é novo. Tudo continua a ser aprendizagem, e eu sei o que tenho que fazer – há muito tempo”.

“Jóquei” é o nome que se dá ao profissional que monta o cavalo de corrida. Profissional que, com o tempo, cria uma relação amorosa muito grande com seu cavalo. Competir deixa de ser algo humano. A corrida torna-se inevitável e a companhia do animal que o faz seguir em frente – assim como os poemas. A arte, para Matilde, é um desvio da realidade que arde: “É, um homem guarda poemas porque sabe que em qualquer momento vai ter que fazer-se à corrida: subitamente tudo arde e então a única possibilidade é o desvio” (Trecho de “A volta no Cadillac de Billy J.”).

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E, por ser um guarda-poemas, o livro é o universo de Matilde. Nele, você verá os publicitários de cotovelos gastos, o êxodo dos vendedores de picolé, os dólares amassados no bolso que vinham na forma de Beretta 92fs, o porteiro da loja de discos, uma caixa torácica de um homem apaixonado, e até a beleza do ácido desoxirribonucleico. São textos que, mesmo muito delicados, não irão tratar só de amor a dois, mas sim exercitar a nossa capacidade de empatia. Ler Matilde Campilho é pensar, também, na dor da família da estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, morta por balas perdidas, na própria escola, no dia 30 de março. Pensar nos sonhos interrompidos. Pensar na jogadora que ela podia ter se tornado. Pensar.

Estar diante dos textos dela é estar diante da internet com várias janelas abertas. Mas, apesar da surra de informações e imagens que somos obrigados a fazer, ao final de cada poema vamos parar. Vamos pensar. Tem poesia lá fora também.

Resenha: Gabriel Dias
Fotos: Divulgação

3 comentários Adicione o seu

  1. Anonimo disse:

    Ótimo texto, havia tempo que nao lia algo tao belo. Terei que comprar esse livro, sem duvidas.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Angelo Dias disse:

    Gabriel, a sua resenha produz no leitor uma enorme vontade de ler o livro. Parabéns!

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