Luiz Ruffato: “A FLIP é quase um gueto de brancos” |Notícia|

São Paulo, nove de maio de 2001. Assim se inicia “Eles eram muitos cavalos”, primeiro grande clássico da literatura brasileira nesse século XXI. Narrando um dia inteiro na maior metrópole brasileira, Luiz Ruffato deu voz a milhares de pessoas da chamada classe média baixa, sempre mal representadas na literatura. E foi sabendo dessa urgência levantada pela narrativa que o professor de literatura do departamento de Comunicação Social da PUC-RIO, Sérgio Mota, decidiu adotar a obra de Ruffato em suas aulas. Na última terça-feira, justamente no dia nove de maio, Sérgio organizou um bate-papo com o autor mineiro na sala 102K, local onde ocorre diversos eventos do curso. Presentes, dezenas de alunos se amontoaram nas cadeiras para ver, ouvir e, sobretudo, indagar.

Vestindo blusa azul sobre calça jeans, Ruffato surgiu tímido e foi apresentado por um Sérgio Mota vibrante, visivelmente entusiasmado. Quando finalmente agarrou o microfone, aquele que é o mais badalado autor brasileiro da atualidade, entrou de sola nas questões mais pungentes: literatura, sociedade, Brasil. Ao longo de três horas de debate, Luiz Ruffato explicitou seu descontentamento com o mercado editorial brasileiro, discorreu sobre o início da tradição do romance moderno e deixou bem claro que a única coisa que sabe fazer é escrever.

-Não sei se o que eu faço presta – disse –, mas o que posso dizer é que realmente esse ambiente e esses personagens não existiam na literatura brasileira. Meus personagens não são revolucionários e não fazem pregação política. A meu favor, só isso. É uma contribuição importante para tentar pensar a sociedade como um todo.

E emendou:

-Nós temos um país hipócrita, poucas vezes se vê pobre na literatura, quando aparece, aparece na vida errada. Se nós aqui, os intelectuais, quando vamos escrever nos corrigimos, por que não corrigimos o pobre?

Para Ruffato, o pobre aparecia com psicologia rasa, como se só tivessem angústias e questões metafísicas gente rica. O aluno Gabriel Leonne, do coletivo Nuvem Negra, aproveitou o momento para perguntar sobre a visão do autor mineiro quanto à polêmica envolvendo Carolina de Jesus. Há algumas semanas, durante evento na Academia Carioca de Letras, um acadêmico discursou atacando a autora, morta em 1977, dizendo que sua obra não era literatura. Ruffato fechou o semblante e foi incisivo.

– Quando organizei a antologia “Questão de Pele”, chamar a Conceição Evaristo para prefaciar foi uma escolha natural. Porque você vê a FLIP, por exemplo, que é nosso maior evento literário. A FLIP é um gueto de brancos. Parati tem uma característica: é cercada por correntes. Quem tá lá dentro é branco, quem tá fora é negro. Isso não é uma crítica à FLIP, mas à sociedade. É importante levantarmos nossas questões, nossas bandeiras.

Os alunos se animaram com a contundência do escritor e fizeram perguntas que iam de encontro às próprias crenças de Ruffato. Para Gilberto Junior e Anna Carolina Alves, ambos estudantes de cinema, “Eles eram muitos cavalos” é plenamente adaptável para a tela grande. Ao ouvir isso, o autor riu e respondeu, bem-humorado, porém ácido, que tem medo de “Eles eram muitos cavalos” ganhar as telonas. Segundo ele, o romance é radicalmente literatura.

Questionado sobre a repercussão que o livro, inicialmente rejeitado por todas as editoras, teve ao longo dos anos, Ruffato foi enfático quanto ao mercado:

– Meu livro vende uma edição por ano, mas quando a primeira editora leu, me disse que queria um segundo livro, dessa vez de literatura. Aquilo era uma série de exercícios formais que eu fiz a partir de observações e leituras, uma preparação para meu projeto maior, que me consumiu muito mais tempo [Inferno Provisório, série de cinco romances lançados nos últimos anos, agora reescritos e compilados em um único volume pela Companhia das Letras.] Minha relação com as editoras é puramente profissional. Eles fazem a parte deles e eu faço a minha. A Companhia das Letras me respeita porque eu vendo livros, mas eu sei que não sou do primeiro escalão deles e nem quero ser. Eu não sou autor do mainstream, não vou no botequim, não vou pra casa das pessoas. No dia em que eu me cansar da Companhia, pego meu livro e ofereço a outra casa.

Ainda nas polêmicas, o autor relembrou o episódio ocorrido na Feira de Frankfurt em 2014, quando o Brasil era o país homenageado. Em manifesto lido na abertura, escrito no trem com o também escritor João Paulo Cuenca, Ruffato atacou as condições sociais dos brasileiros fazendo uma dura crítica ao então vice-presidente Michel Temer.

Reportagem: Mateus Baldi
Fotos: Mateus Baldi e Divulgação

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