Linha 2, obrigado. Suellen, também |Inédito|

Um dia desses eu estava no metrô – eu estou no metrô todo dia, mas ok – e, particularmente nesse dia, ocorreu uma situação realmente engraçada. Engraçada no sentido literal, porque a linha entre o cômico e trágico no transporte público carioca é bem tênue. A Linha 2, Pavuna sentido Botafogo, sempre nos reserva essas surpresas…

Quando entrei no vagão, aproximadamente às 7:45, na estação de Irajá, ela já estava contando a história para a amiga. Usar o pronome “ela” para definir a protagonista desse conto, chega a ser desrespeitoso. Vou usar o nome fictício de “Suellen”. Muito comum no subúrbio carioca.

Enfim, quinze para às oito, e Suellen já estava lá, contando sua história e fazendo aquele grupo de pessoas, que estava amontoado perto dela, rir – amontoado por obrigação, eram mais de 100 pessoas em um espaço planejado para 50. Transporte público carioca, como eu disse…

Suellen era periférica, ela mesma disse, em um momento de sua história, mas não vamos nos adiantar. Suellen trabalhava em uma Lojas Americanas, no bairro de São Cristóvão. Não sei em qual especificamente, há mais de cinco na região, pelo que eu pesquisei, mas Suellen gostava de trabalhar lá. Apesar da rotina ser punk, como ela disse, e o salário não ser lá aquelas coisas, ela gostava.

Gostava muito mais do que sua experiência de trabalho anterior, em uma confeitaria Lecadô, na Tijuca. Primeiro ela reclamou das mulheres que frequentavam o estabelecimento: “todas donas de casa, tijucanas, que queriam ser madames de zona sul, mas não tinha merda no cu para cagar”, como ela definiu. Depois, reclamou da gerência do lugar, que, em suas palavras, “contava até aqueles fios amarelos, em cima dos bolos de chocolate, para se certificarem que a gente não tinha comido nada”. Só em contar rindo, naquele vagão lotado e com ar-condicionado desligado, ela já tinha me conquistado. Mas a história melhorou.

Um certo dia, uma das pseudo-madames – esse termo é por minha conta – chegou na loja, e reclamou que a torta que ela tinha encomendado para o aniversário do marido estava toda desestruturada. Suellen falou que quando abriu a caixa, a torta estava normal. A madame gritou que não estava. Suellen foi falar com o gerente. O gerente, um viado gente-boa, que era o único dos supervisores que Suellen gostava, falou que não era a primeira vez que essa senhora vinha na loja causar.

Suellen avisou para a madame que não iria trocar a torta, pois ela estava em perfeitas condições. A madame começou a gritar. Suellen falou que quando ela começou a gritar, seu namorado se aproximou – sim, o namorado de Suellen também trabalhava na mesma loja que ela, e, de acordo com ela, ele de manhã era faxineiro da loja, e, de noite, traficante. Mas só de maconha, nenhuma “droga pesada não”. Um Batman às avessas. Isso tudo, no metrô, de manhã, só para lembrar.

Enquanto a madame gritava, Suellen fazia cara de sonsa. A madame se irritou e jogou a torta na cara da Suellen. Nesse momento, o vagão parou. Era possível sentir a tensão, entre os segundos de silêncio do momento em que Suellen narrava a agressão, e a espera do povo para saber o que aconteceu em seguida.

Ela falou que o namorado na hora veio segurar a madame para ela não partir para cima de Suellen, porém era só estratégia. O namorado segurou a madame, já na posição certa, para que, quando Suellen revidasse, não perdesse o soco. Dito, mas nem tão feito.

Suellen pulou por cima do caixa, “sabe lá Deus como”, e não “encheu a mulher de porrada”, como todos nós esperávamos. Ela falou que tem classe, não é dessas. Pegou o que sobrou da torta e, não só fez questão de jogar na cara da madame, mas se certificou que ela engolisse. Na hora, me veio a cena na cabeça: uma tijucana, sendo segurada por um faxineiro que nas horas vagas era traficante, e Suellen, suja de torta, se certificando que a madame comesse o que jogou nela. Passamos mal de rir. Falo no plural, porque a história já se estendia pelo vagão inteiro.

Por fim, Suellen foi demitida, mas ganhou uma boa gratificação, e terminou o namoro com o anti-herói da limpeza. Ele era gente boa, tratava ela bem, mas “era um eterno chove-não molha”, e ela não curtia se envolver com quem mexia com drogas. A senhora nunca mais apareceu na loja, tampouco prestou a queixa que tinha ameaçado prestar na delegacia.

Chegamos à estação de São Cristóvão. Hora de se despedir de Suellen. Descobri que a amiga para qual Suellen originalmente estava narrando a história, não era amiga. Elas tinham acabado de se conhecer. Reparei porque na hora de se despedir, Suellen disse: “foi um prazer, colega”.

Suellen foi saindo do vagão, gritando, “dá licença que eu tô grávida de 3 meses”. Depois olhou para o grupo que tínhamos acabado de formar, e falou baixinho – mas nem tão baixo assim, era a Suellen, afinal -: “nem tô gestante não, mas quando grito, em dois tempo consigo sair”.

Para o estudante de jornalismo Marcelo Antonio, a escrita é uma forma de moldurar o seu próprio mundo. Inspirado por escritores como Luiz Fernando Veríssimo e George Orwell, o menino afirma que escreve sobre assuntos que surgem no momento. Se diz “tarado” pelo teatro de Nelson Rodrigues e lembra que teve sua época como fã de Harry Potter. Marcelo nunca teve um de seus textos publicado antes e sua estreia está sendo no Bolha Literária.

 

O Bolha Literária acredita na divulgação de novos escritores que muitas vezes não têm a oportunidade de publicar seu trabalho em editoras. Esse espaço foi construído para dar voz a esses jovens talentos. Caso queira enviar o seu texto para ser analisado e publicado basta mandar para o e-mail bolhaliteraria0@gmail.com.

2 comentários Adicione o seu

  1. Ri tanto que doeu a barriga!! A cada linha eu estava mais interessada na história de Suellen e pra saber o que ela fez com a “madame”!! Ótimo projeto investir nesses novos escritores, tem muita gente escrevendo maravilhosamente bem!! Parabéns!!

    http://www.resenhasumrabiscoeumcafe.com.br

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    1. Que bom que você gostou, Letícia!! Esse espaço é muito importante para nós também! 🙂

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