O talento dramático de um poeta romântico |Resenha|

O livro Macário, do escritor romântico Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 – 1852), é de difícil classificação. A obra varia entre o roteiro de uma peça de teatro, um diário íntimo e uma narrativa. É um drama de dois episódios feito mais para leitura do que para representação e demonstra todo o talento do poeta. Se não tivesse morrido tão precocemente, aos 20 anos de idade, ele teria se tornado um excelente dramaturgo.

Neste livro, Álvares de Azevedo narra a história de Macário, um jovem de 20 anos cético, sarcástico e entediado. Logo no início, o estudante faz amizade com um estranho. No entanto, o autor faz suspense e não revela o nome do desconhecido por várias páginas. Somente após um diálogo sobre poesias, a monotonia do mundo e amores impossíveis, Macário descobre que seu misterioso companheiro é ninguém mais, ninguém menos que Satã. Ele convence, sem muito esforço, o entediado estudante a ir com ele, tornando-se seu guia para apresentá-lo a uma cidade.

“Satan — Mulheres, padres, soldados e estudantes. As mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isto salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante, tu.

Macário — Esta cidade deveria ter o teu nome.

Satan — Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas!

No caso, a cidade descrita no trecho acima é São Paulo. Atualmente, ela é uma grande metrópole, mas na primeira metade do século XIX, era apenas uma vila tediosa. Álvares de Azevedo constantemente reclamava da cidade nas cartas endereçadas a sua família no Rio de Janeiro. Apesar de ser paulista, o poeta morou boa parte de sua vida em terras cariocas. Contudo, teve que deixá-las para estudar direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. É importante lembrar que, nessa época, o Rio de Janeiro era capital do Império, enquanto São Paulo era somente um povoado, cujo movimento acontecia grande parte por causa dos jovens boêmios que estudavam na faculdade.

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Macário é dividido em dois atos. O primeiro, é o encontro de Macário com Satã. Para o estudante, seu inusitado companheiro é mal, aterrorizante, mas também é sedutor e fascinante. O segundo ato da peça se passa na Itália. É nesse momento da obra que o autor apresenta aos leitores o personagem Penseroso, um amigo de Macário. Ele vive angustiado em busca de amor e suas falas são permeadas de melancolia. Na verdade, Macário é em sua totalidade uma peça teatral melancólica.

Depois de Lira dos Vinte Anos – livro de poesias de Álvares de Azevedo -, Macário é o grande representante da “binomia” do autor. Porém, enquanto na obra de poemas, a dualidade é mostrada através das duas faces distintas – nomeadas como Ariel e Caliban -, na peça, a antítese de Azevedo é vista nos personagens. Macário é cético, perverso, crítico. Já Penseroso, mais sentimental e idealizador, como os poetas do romantismo. No segundo episódio, durante os diálogos entre os dois, eles assumem posições antagônicas.

O tema macabro é uma das características da literatura gótica, introduzida no Brasil por Álvares de Azevedo, expoente da Segunda Geração Romântica. Aspectos marcantes dessa escola literária podem ser percebidos no livro. Entre eles, o ambiente noturno, a morte, o pessimismo, a melancolia e a idealização amorosa se destacam. Por causa da linguagem de época – poética e rebuscada -, a leitura de Macário não é fácil e nem rápida. Porém, vale a pena ser feita, pois a história traz reflexões e discussões interessantes – acerca de vários assuntos, tais como amor, poesia, virgindade e morte -, além de ser um ótimo exemplo do que foi a segunda fase do Romantismo no Brasil.

Resenha: Letícia Höfke
Fotos: Divulgação

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