Harry Potter e a popularização de personagens femininas na literatura infanto-juvenil |Notícias|

Os livros da série “Harry Potter” foram um marco para a literatura infanto-juvenil pela narrativa que destaca personagens femininas, geralmente apagadas no meio literário. A especialista em literatura infanto-juvenil Priscila Mana Vaz afirma que “Harry Potter” inovou a literatura infantil por popularizar a narrativa em formato de universo – a história ocorre dentro de um mundo aberto, no qual as personagens podem se deslocar.  Elas afetam o curso da narrativa devido suas ações, tomando decisões tão importantes quanto as dos masculinos. Assim, junto com a narrativa, personagens mais complexas também foram desenvolvidas, inclusive as femininas.

– A obra traz grandes exemplos femininos que seguem pelos oito livros – disse Priscila.

 Com mais de 450 milhões de exemplares em todo o mundo, o sucesso da saga pode ser explicado a partir tanto de seu conteúdo quanto de sua forma.  A pesquisadora do iiLer Maria Clara Cavalcanti acredita que Rowling quebrou vários tabus sobre a literatura infantil, como a necessidade de ilustração e número de páginas limitado. Descobriu-se que a criança apresenta um fôlego de leitura maior que o esperado. Os livros também não infantilizam as crianças com uma linguagem simplificada.

 – Outra razão para o sucesso de “Harry Potter” é que J. K. Rowling segue na escrita o roteiro a “Jornada do Herói” de Vladimir Propp já internalizado em nós e por isso facilmente reconhecido por todas as idades. Isso sem falar que ela dá uma de Sherazade. Os capítulos terminam sempre em um clímax que só será resolvido no próximo – contou a pesquisadora.

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Além de quebrar tabus no meio infantil, Rowling também discute preconceitos em seus livros. Maria Clara também destaca que essas reflexões, como a própria morte por exemplo, também ajudam na identificação do leitor. Para a pesquisa, Rowling trata em seus livros sobre humanos verdadeiros.

 – Ela mostra que não existe a criança idealizada, sempre comportada e obediente. Todos os personagens têm raiva, ciúmes, inveja, tristeza, o que os torna humanos – disse Maria Clara.

Já havia na literatura mundial meninas que eram fortes e decididas. Alice é um ótimo exemplo, pois se ela não tivesse se dispersado da irmã nada da narrativa aconteceria, tanto nos livros “Alice no país das maravilhas” e “Alice através do espelho”, ambos do autor Lewis Carroll. Contudo, apenas com “Harry Potter” esse tipo de personagem se democratizou para o público em geral.

Os historiadores Arielle Farnezi Silva e Olávio Neto viram um grande potencial nas personagens femininas da série, o suficiente para a elaboração do trabalho “Uma análise da representação feminina e as referências culturais na saga Harry Potter: quando até mesmo a magia dialoga com a realidade”.

– Surgiu um grupo de trabalho sobre gênero em um simpósio e decidimos aproveitar a oportunidade. Para nós dois, a saga Harry Potter é repleta de personagens mulheres que podem servir de exemplo de força. São mulheres claramente independentes, que lutam contra os domínios masculinos e são cientes que sua condição não é inferior à do sexo masculino – afirmaram ambos.

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Segundo os historiadores, estamos em uma tendência de abrir mais espaço no mundo literário para as mulheres, devido atuais mudanças sociais. “Várias autoras mulheres estão ganhando espaço nesse meio e aproveitam para falar dessas temáticas em suas obras”.

– Na obra de J. K. Rowling é possível encontrar mulheres ocupando os mais diversos espaços. Elas ocupam desde o papel tradicional destinado às mulheres, que é o ambiente doméstico, até cargos do alto poder. O que Rowling deixa claro na sua obra é que não existe um cargo ou um papel desempenhado por homens que as mulheres não possam desempenhar da mesma forma. Ela não ignora que o machismo é uma realidade, mas aproveita seu espaço e influência para trabalhar tal temática – comentaram.

Uma das editoras da Rocco, Mônica Figueiredo, destaca os papéis sociais que são representados na narrativa. De mãe afetuosa até vilã dominadora, as mulheres em “Harry Potter” retratam a realidade.

– Ao longo da saga, há personagens com diferentes tipos de personalidades (tímidas, dominadoras, impetuosas, pérfidas, românticas) como uma forma de apresentação diversa da realidade. É justamente esta diversidade que gera a possibilidade de identificação e empatia por parte do público – disse Mônica.

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Tais personagens femininos fortes foram influências positivas para as meninas que cresceram lendo a saga “Harry Potter”. A estudante de audiovisual Thalia Villafañe Santos Duarte, de 20 anos, conheceu a série quando criança. Aos sete anos, sua mãe lia “Harry Potter e a Pedra Filosofal” – primeiro volume – na hora de dormir. Mais tarde, aos dez anos quando seu pai lhe deu o sexto volume, decidiu ler por ela mesma as aventuras do bruxo.

– Pelos anos da minha pré-adolescência, eu sempre tinha um livro de “Harry Potter” nas mãos. Era conhecida como “a menina do Harry Potter” porque lia o livro durante as aulas e o recreio. A série foi uma parte marcante do meu desenvolvimento, era uma conexão com meu pai que mudou de estado quando eu era nova e também meu mundo único entre páginas gastas de uso.  Ler sobre o cabelo cacheado e alto de Hermione me fez me identificar com uma personagem pela primeira vez, especialmente seu jeito sabe-tudo. Era como ler uma versão mágica de mim mesma. Harry Potter desenvolveu um compasso moral forte e me inspirou em vários momentos difíceis da vida – contou Thalia.

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Outro caso de identificação com a narrativa e os personagens é a da estudante de Ciência Política Brenda Marcella Brito e Sousa, de 24 anos. Ela teve como companhia os livros durante sua adolescência e eles tiveram uma participação em seu crescimento. 

– A segunda vez que eu li a série de Harry Potter foi na verdade a mais importante para mim. Eu tinha 17 anos e tive minha primeira grande crise de depressão e reler os livros foi como reencontrar amigos queridos e foi muito importante no processo de recuperação da depressão – contou Brenda.

Já a publicitária Camila Breves, de 24 anos, leu a saga quando era mais velha. Contudo, a influência das personagens femininas a afetaram profundamente. Para ela, “essas personagens não estão na história só para “cumprir a cota” de mulheres ou fazer par romântico, como muitas vezes acontece. Seus papéis são realmente significantes e impulsionam a narrativa”.

– Nos livros, poucas vezes as personagens são descritas pela sua beleza ou delicadeza. O foco está no caráter, inteligência, liderança, poder de persuasão, braveza, lealdade e coragem. Esse é o exemplo que acredito que meninas devem ter. Para construírem sua personalidade com base nas suas ambições e competências, e não dando a grande importância a aparência como a mídia normalmente faz – afirmou Camila.

Reportagem: Karen Krieger
Fotos: Divulgação

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