Renata Ventura: a autora que misturou Harry Potter e cultura brasileira|Entrevista|

A série de livros do bruxo Harry Potter conquistou muito fãs e inspirou diversos escritores ao redor do mundo. Esse foi o caso da escritora e jornalista brasileira Renata Ventura. Ela escreveu a série “A Arma Escarlate” e trouxe o universo de Harry Potter para o cenário carioca do fim dos anos 90. O primeiro livro da série foi lançado em novembro de 2011. Na história de Renata, Harry se torna Hugo, um morador do morro Santa Marta, que descobre ser um bruxo e vai para uma escola de magia no Corcovado. Em entrevista para o Bolha, Renata afirmou que seu livro, ao falar de temas brasileiros, contribuiu para a valorização da cultura nacional. Segundo ela, quanto mais o Brasil for usado como cenário na literatura, melhor.

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Bolha: Por que fazer um livro trazendo o universo de Harry Potter para o Brasil?

Renata: Eu sempre amei Harry Potter e, enquanto lia, ficava imaginando como seria a comunidade bruxa no Brasil. Como meu maior sonho era utilizar a fantasia para discutir a realidade brasileira, pensei: por que não juntar os dois? Ainda existe um preconceito enorme dos jovens brasileiros contra o Brasil, e eu queria usar o universo fantástico, que eles já amavam, para chamar atenção desses jovens para o nosso país, para nossa rica cultura e nossa incrível história. Fazendo isso, eu poderia usar a fantasia para discutir também assuntos complexos, como desigualdade social, racismo, corrupção, violência, abandono, etc. Acho que a fantasia é um dos melhores meios para se abordar a realidade. O Brasil é tão mágico, é tão diverso, tem uma cultura tão rica, seres folclóricos tão incríveis, que a maioria do povo desconhece, que seria uma pena não haver nenhum livro de fantasia ambientado aqui. Ainda bem que, hoje em dia, o Brasil está se tornando cenário de cada vez mais livros fantásticos.

Bolha: De onde veio a ideia de fazer o livro?

Renata: Eu já vinha pensando em como seria uma comunidade bruxa no Brasil há algum tempo, mas a ideia de escrever, de fato, o que eu estava imaginando, veio quando vi uma entrevista com a J.K. Rowling. Nela, um jovem norte-americano perguntava à autora se ela um dia escreveria um livro sobre uma escola de magia nos Estados Unidos. Ela respondeu que não, mas sugeriu que ele próprio escrevesse! Foi então que decidi fazer o mesmo, só que no Brasil!

Bolha: Quais os temas sociais abordados na obra?

Renata: No primeiro, são vários: corrupção, desigualdade social, violência polícia, drogas, mães solteiras, má qualidade na educação… Ao longo dos cinco livros, vou acabar abordando todos os temas possíveis, porque é impossível falar realisticamente sobre o Brasil sem abordar política, economia, religiosidade, cultura… Isso acaba tornando os livros muito mais ricos, mais reais e mais pesados do que seriam se eu mantivesse a história apenas no terreno da fantasia. Os temas abordados no primeiro vão de desigualdade social à trafico de drogas, corrupção na polícia, na política, na escola… discuto educação, pedagogia, respeito, bullying, tolerância, tudo. O segundo livro já é mais político; fala de eleições, de protestos, de ditadura… mas também de amor, de decepção, de machismo, de gravidez na adolescência, de tolerância religiosa… O terceiro irá tratar do meio ambiente, da Amazônia, das culturas indígenas, do preconceito, do desconhecimento, da mitologia do norte do Brasil… Os temas são infinitos quando o cenário é o nosso enorme país continental.

Bolha: Quais as diferenças entre seus livros e os escritos pela J.K. Rowling?

Renata: São muitas. Hugo é um anti-herói, um menino um pouco agressivo, impulsivo, egoísta, ambicioso… nada parecido com o Harry. O oposto do Harry, na verdade. Morador da comunidade Santa Marta, no Rio de Janeiro, em uma das épocas mais sangrentas do local, Hugo já começa o livro ameaçado de morte pelos chefes do tráfico, antes mesmo de descobrir que é bruxo. Então, ele vê na escola de magia uma maneira de aprender o suficiente para voltar e matar o cara que o humilhou a vida inteira e que está ameaçando sua mãe. Ao contrário de Harry, desde o início, Hugo vê sua varinha como uma arma, não como uma ferramenta.

Quanto à escola, em A Arma Escarlate há cinco escolas no Brasil, uma em cada região do país. Essas escolas são completamente diferentes umas das outras, em método de ensino, em tipo de magia, seus professores têm comportamentos e atitudes diferentes, e cada uma delas será visitada em um dos cinco livros da saga, por motivos diversos. A escola do Rio de Janeiro tenta sempre imitar a Europa, mas é uma bagunça; a escola de Salvador é bem mais livre, mais alegre, cheia de magia africana; a escola da Amazônia é rica em mitologia indígena e amazonense, magia com ervas e elementos da natureza, magia espiritual… etc.

Bolha: De que forma isso contribui para a valorização da cultura nacional?

Renata: Quanto mais o Brasil for usado como cenário em histórias empolgantes, mais entusiasmados os leitores começarão a ficar com relação ao próprio país deles. A mensagem que mais recebo de meus leitores é essa: de que começaram a amar o Brasil após lerem meus livros. Começam a amar um país que antes desprezavam. Isso é muito importante.

Lendo os livros, eles entram em contato com regionalismos, com culturas que não conheciam, com o modo de pensar de cada região do Brasil… passam a gostar de personagens de diferentes estados, acabando com preconceitos que podiam haver tido antes… Uma das personagens favoritas de meus leitores, por exemplo, é uma velha bruxa pernambucana, que dá conselhos “amorosos” para Hugo. Outro personagem que admiram muito é um cearense, que tem imensas asas marrons e vira uma coruja-buraqueira.

Bolha: Você diria que o mercado de livros nacionais – com  temas da cultura brasileira – está crescendo?

Renata: Com certeza, principalmente para jovens-adultos. Antes, tínhamos os livros de Monteiro Lobato e outras obras do tipo, voltadas para crianças. Hoje em dia, está crescendo o número de livros que abordam a cultura brasileira para jovens e adultos. Os livros do Felipe Castilho são ótimos exemplos.

Bolha: Seu livro não pode ser considerado uma fanfic. O que o difere de uma?

Renata: Fanfics são histórias escritas por fãs, que usam personagens, criaturas e/ou elementos criados pelos autores dos livros que gostam. Quanto a meus livros, eu tomei cuidado para não usar nada que J.K. Rowling houvesse criado. Todos os personagens, cenários e palavras mágicas que aparecem neles são originais de meus livros, foram criados por mim, ou então, já existiam na realidade e no folclore brasileiros, assim como na mitologia europeia.

Bolha: Por que escolher o Rio de Janeiro? E porque o momento histórico?

Renata: De início, escolhi o Rio de Janeiro como cidade principal porque, como carioca, conheço melhor o Rio do que qualquer outra cidade do país, e porque, desde o início, eu queria que a escola de magia do Sudeste fosse dentro da montanha do Corcovado, como se a montanha fosse oca. Três das escolas de meu livro foram colocadas em cidades de grande importância histórica para o Brasil. Rio de Janeiro já foi capital, assim como Salvador. A escola do Centro-Oeste é em Brasília, então, só aí já são três capitais da República. A construção das escolas foi acompanhando essa mudança de capital. A escola do Sul é em Curitiba, mas antes era em Porto Alegre. Acabou mudando de lugar quando estourou a Revolução Farroupilha e o Rio Grande do Sul deixou de ser Brasil por uma década, fato que acabou obrigando a escola do Sul a migrar, primeiro para Florianópolis (a “Ilha da Magia”) e depois para Curitiba, já que Santa Catarina também resolveu virar uma república naquela época. A República Juliana. Onde fica a escola do Norte é segredo. Ainda não posso contar. Quanto ao ano, escolhi 1997 por ter sido uma das épocas mais sangrentas da comunidade Santa Marta, no morro Dona Marta (mesmo morro que vai dar no Corcovado).

Entrevista: Letícia Höfke
Fotos: Divulgação

Gostou da entrevista? Essa é a primeira de muitas que ainda vão vir. Autores, editores, designers de capas, tradutores… O universo literário tem diversos personagens com ótimas histórias para contar. Qual deles vocês gostariam que o Bolha entrevistasse? Não se esqueça de seguir o site no Facebook. Até a próxima!

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