A neve e o tempo |Resenha|

Davos-Platz é hoje um povoado suíço muito semelhante aos demais. Estação de esqui durante o inverno, pasto para os rebanhos durante o verão e um vilarejo tramontano nos entremeios. Durante poucos e gélidos dias de janeiro, Davos é palco para um dos mais renomados fóruns econômicos mundiais – porém, não tardiamente, retoma sua toada bovina, como convém às montanhas europeias. Pode-se imaginar, então, que o tempo discorre em Davos de forma diametralmente diferente do que em uma grande cidade. Se em Hamburgo, por exemplo, o ritmo dos guindastes portuários, das fábricas e armazéns dita o passar das horas, em Davos a única referência possível é a neve eterna dos Alpes, para sempre depositada em seus cumes. É justamente essa transferência atordoante – do frenesi urbano à estagnação montanhesa – que sofre o engenheiro Hans Castorp, protagonista de A Montanha Mágica, um dos mais cativantes romances da literatura moderna e obra-prima de Thomas Mann.

Com o intuito de acompanhar o primo Joachim Ziemssen durante seu tratamento contra a tuberculose, Hans Castorp decide hospedar-se durante três semanas no sanatório Berghof, uma das mais renomadas instituições médicas da Europa. O sanatório é um ímã para a elite convalescente dos mais variados países, atraindo de russos a mexicanos que sofrem da doença pulmonar. Ao colocar os pés no sanatório, Hans já incita a primeira confusão quanto sua estadia. “Três semanas? Nossa menor unidade de tempo é o mês”. alerta um dos hóspedes, do qual trataremos mais adiante.

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Thomas Mann

O enredo, contudo, trata de povoar a estadia de Hans – que estenderá-se muito além do previsto – com inúmeros nuances capazes de influenciar a formação do jovem. Em primeiro lugar, há a paixonite inveterada por Clawdia Chauchat, uma aristocrata eslava que lhe empresta uma lapiseira durante a festa de carnaval. Logo após anunciar que, na manhã seguinte, deixaria o sanatório. Sua sensualidade felina atravessa todo o livro como um tênue fio de ouro, justificando as intenções de Hans. Em segundo lugar, há os embates pedagógicos e titânicos entre o italiano Settembrini e o espanhol Naphta. O primeiro, republicano, humanista e democrata, defensor da civilização europeia enquanto apoteose da potência ocidental – quem questionou Hans quanto o tempo de sua estada. O segundo, jesuíta, obscuro e autoritário, amante da barbárie e do terror. As incontáveis conversas travadas entre as duas personagens traçam um panorama completo de um continente prestes a lançar-se ao precipício.

Como um típico Bildungsroman – romance de formação – a intenção de A Montanha Mágica recai sobre a construção gradual da personalidade de Hans Castorp do modo mais abrangente possível. Isso significa que, a princípio, a narrativa tenta mostrar Castorp como uma página em branco, inocente e ingênuo, a caminho do sanatório. Durante esse período, suas falas são reprimidas ou constantemente lançadas para o escanteio dos diálogos de Settembrini e Naphta. As colocações de ambos vão cristalizando-se em seus pensamentos e, lentamente, oferecendo-lhe substrato para tratar dos mais variados temas de acordo com a própria potencialidade. Ao fim do livro, Hans está inundado por todas as confluências produzidas pela Europa durante séculos, simbolizando um mundo à beira do colapso.

No entanto, Hans e todos os outros personagens são, de um modo ou outro, redimidos pelo tempo. Suas existências fugazes ganham densidade no topo da montanha, a ponto de muitos não planejarem deixá-la tão cedo. A doença instalada em seus corpos deturpa o tempo, fazendo-o parecer mais vagaroso e, por consequência, afastando-os da morte. Incapazes de barrar o avanço violento dos novos anos, os hóspedes preferem exilar-se no Berghof, antecipando sua partida. Hans é uma das poucas exceções que marcha bravamente rumo a planície.

Infelizmente, Thomas Mann fora um autor renegado pela contracultura dos anos 60, em função de seu método ortodoxo e sua disciplina prussiana ao escrever. A literatura de Mann está de braços dados com a filosofia, e preocupa-se mais com o conteúdo presente na obra do que com os meandros que o expõe. O que não significa, é claro – e seria injusto dizê-lo – que A Montanha Mágica não está repleta de metáforas, alusões, flashbacks, alegorias e diálogos tão belos quanto a paisagem que se vê nas montanhas de Davos.

A Montanha Mágica é um livraço em todos os sentidos. Nenhuma outra obra é capaz de tratar com tanta precisão de uma variedade tamanha de assuntos – medicina, biologia, criminologia, psicologia, teoria política, música, história, pintura, humor, amor e tempo são apenas alguns exemplos. O Berghof – que, numa coincidência sinistra, assume o mesmo nome da residência de Hitler nos Alpes – é um cenário instigante e misterioso, envolto pelas brumas indissipáveis das montanhas. O cenário, inclusive, sugere o do filme A Juventude de Paolo Sorrentino, um espetacular trabalho de fotografia. Hans Castorp, por fim, é uma personagem digna de ternura como são todos os homens e mulheres. É impossível não sentir-se, também, parte integrante deste mundo, quando vemos que o horizonte alpino começa a anunciar novas reviravoltas.

Resenha: Rodrigo Franco
Fotos: Divulgação

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